quarta-feira, 26 de maio de 2010

sábado, 22 de maio de 2010

Adaptação


Semana passada, Robert Mckee veio ao Brasil (São Paulo, claro), para o seminário Story. Mckee é tido como o mais importante professor de roteiro cinematográfico, além de ter escrito o mais famoso (e melhor, eu acho) livro sobre o assunto - Story (também). Mas eu não fui no seminário, que, além de ser 4 dias em São Paulo, só a inscrição custava R$ 1250,00. Doeria no bolso. Frustrado, resolvi assistir novamente Adaptação (Adaptation, EUA, 2002 - 1 h 54 min), que homenageia o professor. A direção é assinada por Spike Jonze (Quero ser John Malkovich) e o roteiro por Charlie Kaufman (Brilho eterno de uma mente sem lembranças) com seu irmão Donald Kaufman.
Charlie Kaufman (sim, ele é o protagonista - atuado por Nicolas Cage [e muito bem atuado]) vive um momento especial em sua carreira de roteirista. O resultado de Quero ser John Malkovich lhe renderam ótimos elogios. Com a visibilidade, é incubido de roteirizar um best seller escrito por Susan Orlean (Meryl Streep). Kaufman questiona seu talento ao entrar num bloqueio criativo causado pelo livro, que tem palavras tão fortes que ele não vê caminhos para transformá-las em imagens, que é o que um roteiro exige. Saltando no tempo, o filme nos mostra a apuração da jornalista Susan para escrever seu livro sobre orquídeas, que Kaufman tenta adaptar.
A vida pessoal de Kaufman também o atrapalho no processo criativo. Há mulheres interessadas nele, mas o dito se acha gordo demais para elas. Para piorar, vive com seu irmão gêmeo Donald (Cage, novamente). Enquanto Charlie é tímido, pessimista e melancólico, Donald é alegre, bobão e confiante (arrogante, normalmente). Charlie é experiente na sua profissão, tendo convicção de sua técnica. Já Donald (que tenta engrenar como roteirista), é o típico cara que lê manuais de roteiro e acha que descobriu uma mina de ouro. Em diversos momentos ele menciona Mckee, além de carregar Story em algumas cenas.
Assim como em Quero ser John..., muitos atores estão no filme fazendo a si mesmos, como Catherine Keener, que normalmente aparece nos sets de Quero ser John Malkovich, em que muitas cenas são verdadeiras das gravações deste filme. Mas o personagem que se destaca é a narrativa. Esse é o tema do filme, afinal. Debate-se a adaptação. A medida que Kaufman mergulha em sua crise, o filme vai ficando cada vez mais confuso, arrastado. Como um carro sem motorista. É quando nos surpreendemos pela voz over da Susan: "reduza o material... escolha um elemento e foque nele". Há esses momentos em que a aula de roteiro é literal.
Kaufman decide que tem que conhecer a Susan para voltar a ser criativo. Ele parte para Nova York, onde ela trabalha. Tímido, não consegue o encontro. Por sorte, passava pela cidade Mckee e seu seminário. Kaufman comparece ao seminário, quase que se escondendo. Ele considera um grande fracasso para um roteirista estabelecido estar nesse tipo de curso. Ele se surpreende com o seminário, que é tudo aquilo que seu irmão empolgado dizia. Mckee lança suas frases mais famosas, como "nunca use Deus ex machina", "com assim a vida real não tem graça?" e "nunca use a voz over" (nesse momento, pra quem já estava se irritando com a voz over, se choca com a piada metalinguistica). É a partir do encontro com Mckee que a narrativa sai do seu estado mais mórbido para engrenar novamente. O filme lança recursos que o  Mckee aponta como errados e agora é hora de tentar corrigir.
A trama tenta se reencontrar, mas esqueceu-se de algo. Mckee falou para não usar o Deus ex machina, mas a tentação foi tamanha que bizarramente personagens bons viraram assassinos, viciados em drogas... os tapados ficaram inteligentes. Kaufman (o verdadeiro), abusa das piadas internas. Só saberá que os defeitos do roteiro são propositais quem entender um pouco da coisa.
É Susan quem nos explica o que é adaptação. As orquídeas o fazem para sobreviver, e fazem porque querem viver. É preciso gostar de algo, tanto que te faça se adaptar para isso. Ou seja, não se assasina ou livro quando ele vai para o cinema, mas nasce um filme. E os curiosos procurarão o livro, mantendo assim sua sobrevivência.

Agora, palavras gratuitas de Robert Mckee sobre história (estória, como ele prefere) x linguagem:


sexta-feira, 21 de maio de 2010

Tipografia na web

Aos poucos a tipografia na web vem ganhando mais espaço. Ainda assim, no design gráfico há mais tradição e estrutura para trabalhos sofisticados com tipos. Isso acontece por um site depender muito das condições do usuário (navegador que ele utiliza, versão do navegador, tamanho do monitor,etc), fazendo com que o mesmo site tenha propriedades diferentes em computadores diferentes. Outro contra para a tipografia na web é o pixel. Com corpo de fonte reduzido, os detalhes das fontes, que podem ser serifas muito delicadas, se perdem. Sem contar que no texto corrido não se trabalhará espaçamento entre letras e linhas, recursos que enriquecem o design gráfico.
Mas, com o avanço dos navegadores, da linguagem de web e dos monitores, designers já podem ser mais ousados nos trabalhos tipográficos. Um impasse ainda é que normalmente isso só é permitido onde o texto estiver com corpo bem ampliado e como imagem, quando a formatação não será afetada pelo site ser aberto em diferentes máquinas.
Agora, 35 exemplos do bom uso da tipografia na web
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quarta-feira, 12 de maio de 2010

Papertoys da Peopletoo

Abaixo, papertoys criados pelo studio russo Peopletoo. Além de cômico, o trabalho do estúdio é muito bem elaborado e finalizado, com detalhes que enchem os olhos.

domingo, 9 de maio de 2010

Casablanca


Como prometido, aqui está a crítica a Casablanca (Casablanca, EUA, 1942 - 1 h 43 min), de onde tirei o título do blog. O mais memorável filme de Michael Curtis (Capitão Blood), Casablanca não é lembrado apenas por contribuições à linguagem cinematográfica, pois não o característica mais forte, mas sim pela sutileza no tratamento do tema, que, por ora trivial, é puramente verdadeiro.
Durante a Segunda Guerra, os que fugiam da Europa, cada vez mais nazista, para os EUA tinham que passar por Casablanca, cidade marroquina - última escala à América. Lá está o bar Rick's, cujo dono é o Richard Blane (Humphrey Bogart). O estabelecimento é frequentado por todo tipo de gente - desde nazista à franceses (que tiveram seu orgulho abalado pela invasão nazista durante a Segunda Guerra). Rick's, portanto, é um espaço onde as coisas podem dar trégua e, quando isso não acontece, Richard não faz nada para impedir, pois como ele mesmo diz, "não me arrisco por ninguém". Sam (Dooley Wilson) é responsável pela música - canta e toca piano brilhantemente. Sam é o único amigo de Richard, sendo seu conselheiro. Richard é o típico anti-herói - cafageste, nem bonito, nem feio e grosseiro (personagem que ganhou muito espaço no Noir, gênero cinematográfico marcante da época). Toda a segurança e arrogância de Richard é questionada quando reaparece em sua vida Ilsa (Ingrid Bergman), um amor do passado. Ilsa está casada com Laszlo (Paul Henreid), mas seu amor por Richard ainda é intenso. Forma-se, assim, o triângulo amoroso.
Bergman encarna Ilsa, nos confundindo entre suas expressões que vão de uma apaixonada que ama muito, as vezes não quer amar e também não sabe se deve. Entre Ilsa e Richard, que tem suas crenças e ideais confundidos ao se reencontrarem, temos o lúcido Sam, que acompanha as coisas do lado de fora, observando de camarote - é o telespectador no filme de terror que tenta dizer à garotinha para não entrar pelo corredor escuro. Nos momentos em que as relações entre Ilsa e Richard são tão abstratas e não é possível Sam dar o melhor conselho, tanto Ilsa quanto Richard não hesitam em pedir a Sam que "toque de novo" "As time goes by", cujos versos "a kiss is just a kiss" e "A sigh is just a sigh"diz muito sobre o sucesso desse filme até hoje. Casablanca não aparenta ter nada sensacional que vemos muitos em outros filmes inesquecíveis. O segredo de Casablanca está em mostrar sonhos verdadeiros das pessoas em momentos de cansaço, nos momentos em que se recomenda ficar calado. Entre uma opressão e outra há o descanso em que a sutileza de "a kiss is just a kiss" ganha importância bem maior.
Fator determinante para o padrão quase blocado de Casablanca é ser um filme de estúdio nos anos 40 em hollywood. Nessa época, a industrialização era tão severa que tudo era realmente um produto, sendo poucos os filmes em que os traços pessoais de um diretor sobressaiam. Em resposta a isso temos o cinema Noir, que era visto pelos americanos apenas como filmes B, mas que para os franceses era o cinema lutando pra sobreviver, tanto que logo nasce a Nouvelle Vague - criticando os filmes de estúdio e valorizando o Noir. É grande mérito de Casablanca ser um filme de estúdio da década de 40 e ser lembrado, isso mostra como o traço de Curtis sobreviveu à industrialização.
Casablanca é responsável também por algumas daquelas frases que todo mundo fala, sem saber de sua origem.  São elas "ainda temos Paris" e "Esse é o início de uma bela amizade". A fotografia também merece créditos - um preto e branco com contrastes acentuados, valorizando a dimensão dos cenários. O vídeo a seguir é mostra algumas cenas de Richard e Ilsa. Está aí "as time goes by".

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Pacote CS5 da Adobe e o apocalipse

Deixo este  vídeo que mostra a nova ferramenta que vem com o pacote Adobe CS5: Flash Catalyst. Não pensem que é uma nova versão do Flash - é um programa totalmente novo mesmo. Seus recursos permitem que criemos interfaces arrojadas que só eram possíveis no antigo Flash com conhecimentos absurdos de linguagem Action Script.
Apoicalipse? Sim. O pacote CS5 tem uma integração muito maior entre os Softwares. A convergência entre as mídias é quase absoluta. As peças gráficas são facilmente transformadas em animações.

domingo, 2 de maio de 2010

Alice no País das Maravilhas



O repúdio de boa parte do público e da crítica a Alice no país das maravilhas (Alice in wonderland, EUA, 2010 - 1 h 49 min) talvez esteja no apego desses ao livro e à uma estrutura narrativa mais convencional (não que o filme seja um modelo de experimentação narrativa). O novo filme do Tim Burton (Edward mãos de tesoura) tem sim defeitos, mas não deixa de ter seu espaço entre os grandes trabalhos do diretor, ora chamado de inventivo e estilístico, ora acusado de abusar da fórmula.
Alice (Mia Wasikowska), mais de 10 anos após conhecer o lugar encantado e surreal onde chegou caindo numa toca de coelho, o qual chamou "País das maravilhas", vive sobre a linha tênue da incerteza. Não se sente a vontade nos eventos socialites, tampouco em ter que fingir ser uma donzela. Outra de suas incertezas é saber até onde seus sonhos são sonhos. Ela tem o mesmo desde criança. Numa festa com toda a elite de Londres, Alice descobre que será pedida em casamento publicamente por um inglês almofadinha. Ela está transtornada por ser a única a perceber um coelho correndo por entre os arbustros do jardim. Isso parece fazer com que sua memória entre em fluxo, mixando lembranças (como quando alguém reclama das rosas brancas e ela fala que basta pintar de vermelho - algo que fez em sua primeira viagem ao País das maravilhas), sonhos e realidade. Em toda a sequência da festa, a profundidade de campo é minunciosamente trabalhada. Os enquadramentos priorizam as camadas, com elementos próximos e outros em background. O 3D reforça isso, fazendo alguns personagens desgrudarem da tela, enquanto outros, mais distantes, continuam lá.
Na frente de uma multidão, prestes a ter que dizer sim ou não para um pedido de casamento, Alice vê o coelho correndo e sai atrás deste. O animal desaparece próximo a um buraco, onde Alice cai. A queda dura alguns minutos e é um dos momentos mais viscerais - quando todos os nossos 5 sentidos são acionados pelo design de som e efeitos visuais. A cena seguinte explica o filme: Alice chega a uma sala redonda. Numa mesa há um vidrinho escrito "beba-me". Bebendo, a menina encolhe. No chão, um bolinho escrito "coma-me", que a faz crescer. Ela é observada por personagens que murmuram coisas como "esta não é a verdadeira Alice", "sim, é a Alice". A Alice verdadeira talvez esteja entre o esticar e encolher.
Evoluindo deste ponto em diante, o filme vai ficando cada vez mais confuso. A narrativa não parece ser guiada para um objetivo, é como se os subplots não existissem. Diferente do livro, onde predomina o surrealismo, o filme está mais próximo de uma aventura épica (mas ainda há vários elementos surreais). O País das maravilhas foi tomado por uma era ruim, onde a Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter) comanda. As coisas fazem mais sentido, então. Percebemos que quando o filme começou tudo já estava encaminhado, ou seja, estamos vendo um final de 2 horas. Seria o mesmo que ver O Senhor dos Anéis: o retorno do rei (não estou recomendando isso) sem as duas outras partes da trilogia. Temos então dois fatores para a narrativa ter esse aspecto: (1) acompanhamos a ótica de Alice e, à medida que ela percebe o que está acontecendo com ela, quem ela é e passa a separar melhor sonho e realidade nós passamos a mergulhar melhor no filme. (2) O filme é um grande plot, ele não se estabelece bem entre atos (início, meio, fim). É como um buraco no tempo, um limbo - como um sonho.
Como é de se esperar, Burton oferece personagens irreverentes que provavelmente serão lembrados para a posteridade. A Rainha Vermelha, A Rainha Branca (Anne Hathaway) e o Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) são alguns deles. A primeira, é uma sátira aos que tem muito poder, mas não tem capacidade de executá-lo. A Rainha vermelha, com sua cabeça monumental, manda decaptar a todos que merecem alguma punição - pensar em outras alternativas a amedronta. A Rainha Branca é irmã da vermelha. Esperamos que elas sejam o oposto, como que em um duelo de bem e mal. Mas a irmã boa é um paródia da princesa ideal da Disney (estúdio do filme). Hathaway se movimenta como uma bailarina de caixinha de música e, além dessa, suas outras ações e postura são nitidamente forçadas. A Rainha Branca é como alguém que enriqueceu rápido e tem que se adaptar aos novos ambientes para parecer uma donzela. O Chapeleiro segue a linha dos personagens que Depp faz nos filmes do diretor: alguém cheio de personalidade e melancolia.
As proezas técnicas são inquestionáveis. A direção de arte dá a profundidade para o mundo fantástico (a presença das árvores retorcidas já era esperada). A fotografia é a melhor do ano (e nem chegamos na metade de 2010 - mas eu aposto nisso). E a soma da direção de arte mais a fotografia nos planos gerais geram paisagens surreais. A trilha de Danny Elfman segura a narrativa, quando a direção não o faz.
Os maiores defeitos do filme estão na falta de ousadia, principalmente de direção e roteiro. O conceito está bem formulado, mas não é executado ao máximo. Burton não consegue fazer suspense. Na cena em que Alice tem que pegar uma espada guardada por um monstro no castelo da Rainha Vermelha, tudo acontece sem muito risco para a personagem. E um final cheio de lições de moral ditas pela boca da própria Alice, não casam bem com o que vinha sendo explorado até então: o não dito, o subentendido ou o que não queria dizer nada.
Já não bastasse alguns defeitos significativos do filme, ele ainda deve ser muito questionado por aqueles presos na ideia de que o livro é sempre melhor. Literatura e cinema são midias diferentes. As ferramentas necessárias pra o bom funcionamento de cada uma delas também são diferentes. Uma boa adaptação é resultado de uma "destruição" da versão original. "Alice" conseguiu isso, mas os verdadeiros problemas do filme (que não estão no processo de adaptação) depõem contra.

Milton Glaser - I 'heart' NY

Glaser (1929 -   ) foi um dos mais influentes designers e ilustradores do século XX. Seu trabalho é marcado tanto de trabalhos excepcionais como de outros não tão bons. A qualidade duvidosa de alguns de seus trabalhos talvez se deva na aplicação de uma das 7 setenças que o nortearam: dúvida é melhor que certeza. Isso o leva a atitudes experimentais, que estão mais sujeitas ao erro que manter-se na luz do convencional.

Os "7 mandamentos" de Milton Glaser:
1. Menos não é necessariamente mais
Existem trabalhos que só ganham o verdadeiro impacto pelo trabalho que deram.
2. Não se deve confiar num estilo único
A realidade muda, e os estilos devem adaptar-se. Um estilo pode ser muito funcional em um momento, ou durante algumas décadas, mas pode vir por água abaixo após um tempo.
3.Você só deve trabalhar para quem você gosta
Todo trabalho realmente significativo surgiu de um relacionamento afectivo com o cliente. Compartilhar de informações em comum e gerar um laço afetivo torna o trabalho mais completo, estimulante, eficiente.
4. Algumas pessoas são tóxicas, mantenha distância
Observe quais pessoas lhe sugam ou renovam as energias, quais agregam e quais não acrescentam nada em sua vida.
5. Profissionalismo não é suficiente
Profissionais tendem a repetir o sucesso quando acertam. Isso significa reduzir a margem de risco. Porém, uma das coisas mais necessárias no nosso campo é transgredir, e correr o risco de apresentar algo novo, aceitar a possibilidade de falhar ou ouvir alguns ‘nãos’.
6. Dúvida é melhor que certeza.
Quando você tiver certeza de qualquer coisa na sua vida, fique preocupado. A dúvida é o caminho para a evolução.
7. Não se feche em poucas referências
Devemos ser persistentes e consistentes e, principalmente, compreender as idéia a fundo e a amplitude e correlações entre elas. ‘ A riqueza do entendimento vem da profunda idéia histórica e filosófica’.

 'I heart NY' é, sem dúvidas, a mais popular obra de Milton e uma das artes gráficas mais famosas do mundo. Encomendada pelo Departamento de Comércio de Nova York, a peça ficou tão conhecida que 'to heart' é um verbo coloquial inglês para 'amor'.
Pôster para o album Greatest Hits de 1967 do Bob Dylan. A peça transmite de forma clara a essência do músico.
 
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